VIDA LOKA

May 12, 2016

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Era sábado de manhã, dia 26 de março,no dia seguinte o mundo católico celebraria a ressurreição de Cristo e a indústria do chocolate e os dentistas mais lucro com esse fenômeno da natureza, o único do qual se tem registro. 
Eu saí de casa cedo e o plano era ir até a casa do Daniel encher o carro de pacotes de camisetas que tinham ficado prontas no dia anterior e ir pra loja que estava precisando de coisa nova já fazia tempo. 
Eu estava cheio de energia e curioso pra saber a reação dos clientes com o nossa primeira série de estampas novas do ano. 
Eu moro no alto de pinheiros e o Daniel na Vila Madalena.O caminho é curto e rápido principalmente num sábado de manhã. 
Logo que saí senti uma dor no abdômen e minha suspeita inicial era de que fosse uma simples cólica. 
Cheguei na casa do Daniel que estava me esperando ,saí do carro reclamando e fiquei de cócoras na calçada por alguns minutos,a única posição que aliviava um pouco a dor. 
O Daniel que também passou pelos seus próprios dramas gastrointestinais e anda com Buscopan na bolsa me ofereceu alguns comprimidos que eu tomei na hora e sem pensar apesar de ser do tipo que não gosta de medicamento e evita ao máximo tomar qualquer coisa pra qualquer coisa. 
Era sábado de manhã e a rua estava quieta. 
No meio dessa cena aparece um chinês com cara de quem estava dormindo na rua há alguns dias. 
Ele se aproximou de mim,fez a típica reverência  que os orientais  fazem quando se cumprimentam e pediu ajuda. 
Eu olhei bem olhos do bicho ,perguntei o nome dele e pedi pra ele me explicar o que estava acontecendo. 
Ele quase chorando e usando um português básico e difícil de entender me contou o drama pelo qual estava passando. 
Havia chegado de Curitiba há uma semana e fora assaltado no primeiro dia.Desde então tentava conseguir na rua dinheiro pra voltar, sozinho e sem comida ou abrigo. 
Um outro chinês da 25 de março tinha sido a única pessoa que o havia ajudado nesse período com 25 reais pra comida mas ficou com o passaporte do bichinho  como garantia pelo empréstimo. 
Eu entendi o que precisava entender da situação. 
Pedi pro Daniel abrir a porta da Toyota e falei pro chinês entrar que a gente ia pro centro. 
E lá fomos nós. 
Eu e o Daniel na frente e o chinês sentado em cima dos pacotes de camisetas na parte de trás. 
A cólica não melhorava mas a situação distraía a minha mente. 
Parei o carro no estacionamento e enquanto o Daniel levava a mercadoria pra loja eu fui com o chinês até um caixa eletrônico. 
Mais uma vez olhei bem nos olhos dele e falei pra ele ficar mais esperto com as coisas,que ele era um homem.Dei o dinheiro da passagem pra Curitiba e os 25 pro passaporte e desejei boa sorte pro bicho. 
Eu me vi na pele dele durante alguns instantes quando me lembrei dos meus primeiros dias longe de casa do outro lado do mundo  e também achei que pudesse mudar um pouco a impressão dele da cidade...é um inferno, mas se você prestar atenção percebe que as pessoas também se ajudam. 
Ele me fez uma reverência dessa vez abaixando ainda mais a cabeça e sumiu pelo mundo de novo…destino final China. 
Eu cheguei na loja reclamando da dor que eu achava estar piorando e acabei indo até uma farmácia na tentativa de encontrar algo mais forte que pudesse aliviar a situação. 
Nada feito.Mais Buscopan. 
Decidi ficar na loja até a dor passar e quando percebi que isso não ia acontecer resolvi arriscar e voltei dirigindo achando que ia acabar parando o carro no meio da rua e pegar um táxi. 
Liguei pra Júlia do meio do caminho e pedi pra ela encher a banheira com água quente. 
Cheguei em casa ,tomei meu banho e consegui depois disso dormir por 2 horas. 
Acordei com a mesma dor e às 6 da tarde  finalmente me rendi e pedi pra Júlia me levar pro hospital. 
A primeira coisa lá foi tomar um coquetel intravenoso das mesmas drogas que eu havia tomado ao longo do dia...mais Buscopan no sistema. 
Isso aliviou a dor pela primeira vez desde de manhã e quem sente dor constante sabe o que significa um intervalo desse. 
Passei pelo procedimento de rotina respondendo as perguntas do médico de plantão com um único pensamento na cabeça: 
-Chegou a conta. 
Eu não sabia o que estava acontecendo mas não estava surpreso com a situação. 
Eu sei o quanto abusei do meu corpo nesses últimos dois anos e sabia que era uma questão de tempo até ele reagir as minhas provocações. 
O próximo passo foi uma tomografia e às nove da noite, depois de tomar minha dose de contraste na veia e ouvir as instruções do técnico,eu passei os próximos 25 minutos da minha vida “encaixado” numa máquina de TC Scan japonesa que falava comigo. 
Quando as imagens ficaram prontas e o médico do plantão, que já era outro, me chamou nós já estávamos no hospital há 3 horas. 
A jeito dele me irritou de cara e ficou claro que não havia afinidade nenhuma para uma comunicação razoável entre nós mas ele teve tempo de sugerir antes de qualquer outra coisa a internação imediata. 
Nós pedimos para ele ligar pro médico indicado pelos pais da Júlia quando estávamos a caminho do hospital e passar os resultados da tomografia pra ele. 
Ele voltou depois de 15 ou 20 minutos e disse que o Dr.Fernando estava a caminho. 
Era 11 da noite do sábado e nessa hora a intuição deu lugar para a razão e ficou claro que era melhor estar preparado mentalmente para o que estava por vir. 
O Dr.Fernando chegou e foi um alívio perceber que ele era ele...se vocês me entendem. 
E pela primeira vez entendi o que estava acontecendo. 
Surgiu nas imagens o que ele naquele momento chamou de “inflamação” e  que estava causando o espessamento da  parede do cólon e obstruindo o canal. 
Era isso que causava a dor. 
Ele foi cauteloso na análise da imagem e no diálogo comigo mas hoje eu sei que ele já sabia o que estava vendo na tela. 
Eu só queria voltar pra casa e ver meus filhos . Não conseguia pensar em outra coisa. 
Disse pra ele que não sentia mais dor e que agora pelo menos sabia o que estava acontecendo e podia controlar a situação através de uma alimentação líquida/pastosa. 
Ele me liberou e daí pra frente começou de verdade o inferno. 
Passei o domingo “bem” ,em casa com minha família e não senti nenhuma dor. 
Na segunda fiz minha primeira consulta com   Dr. Dino de quem o Dr.Fernando é na verdade cirurgião assistente. 
Era segunda de manhã e como havia acontecido quando apertei as mãos do Dr.Fernando pela primeira vez senti com o Dr.Dino o mesmo tipo de alívio e bem estar. 
Foi da boca dele que ouvi pela primeira vez desde que tudo começou a palavra câncer. 
Palavra que ne vardade já rondava a minha cabeça desde de sábado.   
Tudo indicava que era um tumor mas isso só poderia ser confirmado após uma colonoscopia que fora agendada pro dia seguinte. 
Saí só do consultório e quando cheguei na rua literalmente não sabia o que fazer. 
Fui pra esquerda,voltei , fui pra direita, voltei, fiquei parado um tempo olhando pro nada...Minha desorientação foi total por alguns instantes e saí andando sem rumo pelo itaim e sentia que o mundo em minha volta estava em uma velocidade e eu em outra. 
Câncer? 
Olhava pras pessoas anônimas na rua naquela manhã de segunda-feira e pensava  nos meus filhos. 
Câncer? 
O resultado da colonoscopia saiu na quinta. 
Tumor maligno estágio 3 numa escala de 1 a 4 ,era tudo que se podia saber naquela hora. 
Janela máxima de intervalo até a operação 2 semanas. 
No dia seguinte que era sexta foi marcada a operação pra próxima segunda dia 04/04. 
Eu já havia emagrecido por causa da alimentação pastosa e isso também tinha que ser levado em conta. 
Eu tive o final de semana pra ligar para alguns amigos coisa que não havia feito até então e isso na verdade amplificou o drama e eu só percebi isso quando comecei a chorar falando com um amigo no Japão pedindo pra ele que é na verdade um irmão contar minha situação pros outros irmãos e me mandar boas vibrações dessa terra tão  longe daqui mas da qual eu sentia tanta falta naquela hora. 
Chorei falando com meu irmão caçula Akira e com minha mãe,coisa que não me lembro quando foi a última vez que aconteceu. 
Resolvi que tão importante quanto o apoio dos meus amigos e familiares  era  importante também me preparar para segunda-feira, fiz mais 2 ou 3 ligações e daí pra frente queria minha mente vazia,limpa e o mais serena possível , não era hora de pensar ou falar. 
Minha força precisava vir de dentro pra fora. 
Eu estava prestes a passar por uma colectomia, a remoção subtotal do intestino grosso, 8 hrs. de cirurgia. 
Impossível descrever a maneira como minha mente estava reagindo a imagem dos meus filhinhos brincando em casa no domingo antes da operação. 
Impossível descrever como me senti enquanto estava sendo empurrado em uma maca pelos corredores do hospital em direção a sala cirúrgica. 
Mas me lembro do alívio que senti na segunda as 10 da noite quando abri os olhos pela primeira vez depois da operação  e percebi que estava segurando as mãos da Júlia. 
Apesar da dor e da morfina eu estava feliz por ter acordado e por ela estar lá. 
A semana que passei me recuperando no hospital foi um inferno dentro de outro inferno. 
Minha noção de dor e desconforto mudou durante este período  e o que mais me angustiava era admitir que não era possível fazer o que eu mais queria naquela hora...pegar meus filhos no colo. 
Eu sabia que tinha muito pelo que ser grato até aquele estágio das coisas mas dor é  dor e afeta sua capacidade de pensar e sentir as coisas. 
As noites eram longas e sofridas , mesmo com toda a atenção médica ,estrutura hospitalar e o conforto de ter um amigo e um irmão que mudaram toda a rotina diaria para poder me fazer companhia enquanto a Júlia ficava com as crianças em casa. 
Essa foi minha vontade.Dar prioridade as crianças e manter a casa funcionando. 
No domingo seguinte depois de 7 dias no hospital eu voltei pra casa. 
Deitei na minha rede e olhando pra cicatriz de 30cm  que passava por cima das tatuagens na minha barriga percebi que ia demorar pra assimilar o que tinha acontecido nas últimas 2 semanas. 
No meio desta primeira semana em casa recebi uma ligação do Dr.Dino que falou antes de mais nada que tinha boas notícias. 
O resultado do exame anatomo patológico não poderia ser mais favorável e apesar de eu ainda ter que consultar um oncologista e seguir com o tratamento tudo indicava que a situação estava resolvida. 
Eu chorei pois estava olhando para as crianças enquanto falava com ele. 
Mais uma vez olhei pra minha barriga e pensei que tudo estava acontecendo muito rápido...o corte ainda ardia. 
Faltava agora o teste final, o Pet Scan. 
E nesse estágio eu já estava vivendo minha primeira experiência em um centro oncológico. 
Tudo indicava que o exame seria um reflexo dos resultados obtidos até então mas obviamente eu continuava apreensivo mesmo sabendo das poucas chances de um resultado negativo. 
O Pet Scan confirmou  que eu estava limpo e na categoria que eu me encontro de perfil de tumor eu teoricamente sequer preciso da quimioterapia. 
Mas ela acontecerá, de uma forma mais “suave”  que assim que me foi explicada me fez imaginar o que ela significa pro corpo de uma pessoa quando aplicada na potência máxima. 
E assim terminou no dia 05 de maio o drama que se iniciou no dia 26 de março. 
É como se eu tivesse passado 7 semanas vendo uma roleta girar com todas as minhas  fichas apostadas nessa única rodada. 
Eu melhoro a cada dia. 
O corpo se recupera rápida e naturalmente sem olhar para trás e a cabeça tenta acompanhar mas não consegue. 
Durante esse tempo em casa fiz o que mais me faz bem , trabalhei. 
Parte das peças que fiz para esta temporada foram concebidas no meio desta história enquanto eu coordenava a execução do trabalho daqui com toda a cumplicidade e apoio incondicional do meu time que fez tanta diferença. 
Talvez muita gente que conheço  fique sabendo do que aconteceu através deste post e quanto a isso não posso dizer nada...as coisas aconteceram assim. 
Esta foi uma das travessias mais intensas e dramáticas da minha vida e o que posso dizer agora é que não sinto hoje em relação a vida nada que eu já não sentia. 
É  claro que como pai eu jamais poderei explicar através da palavra escrita a sensação de ter recebido da natureza uma nova chance  para seguir com o plano original e natural de criar meus filhos, e para isso só me resta ser  grato no sentido mais pleno da palavra,e mesmo assim sempre consciente da fragilidade da vida com ou sem doença. 
Não tive momentos de reflexões profundas,complexas e existencialistas sobre minha missão aqui e na verdade agora que passei por isso acredito que um momento de fragilidade física e mental como este seja o pior para este tipo de coisa. 
Eu estava preocupado com questões de trabalho,prazos e ações que tive que adiar e outras coisas relacionadas realidade do meu presente. 
E eu não quero de maneira nenhuma insinuar que não aprendi com a experiência mas não saí dela achando ter descoberto o que realmente importa na vida e prometendo a mim mesmo mudar as coisas pra melhor. 
E apesar do longo período de negligência em relação ao meu corpo que resultou numa resposta completamente compreensível e previsível da natureza eu senti que perceber através desta experiência  que “eu estava mais do que menos em dia comigo mesmo” fez diferença. 
Se não fosse isso acredito que tudo teria sido muito pior pois a crise teria sido física e também mental...um inferno existencial…”tudo”. 
Não foi o fim do mundo mas também não posso agir como se nada tivesse acontecido. 
Escrever sobre isso me fez bem e talvez me ajude a avançar. 
Eu espero que esta história possa também ser útil de alguma maneira para outras pessoas. 
A maneira como contei isso aqui teve como foco principal o fator tempo. 
Escrever sobre sentimentos mais profundos e complexos relacionados por exemplo  ao meu entendimento do impacto permanente que esse acaso do destino de ter me colocado nas mãos do Dr.Dino causou em minha vida e em todas as outras que ela toca e tocará resultaria em um livro. 
E na verdade isso já foi feito em uma carta de agradecimento que consegui finalmente escrever pra ele na semana passada.
No final de tudo só ficou ainda mais clara a maior das verdades, que o que realmente define o curso de todas as coisas é a presença da harmonia e do equilíbrio. 
Essa sempre foi e continua sendo a minha busca mesmo quando pareço avançar na direção oposta. 
Muito obrigado. 
Jun Matsui 
Every Day Is A Good Day 
A última vez que escrevi em um blog foi em 2011 e a primeira em 2005 há 10 anos atrás.
Hoje depois de um período de 4 anos "fora do ar" eu inicio mais um ciclo online.
Passei as últimas semanas trabalhando como era possível neste novo site.
A loja online está no ar, mas como aconteceu com a loja física por aqui também "abro as portas" sabendo que ajustes acontecerão ao longo das próximas semanas.
Peço a compreensão de todos em relação a questões que certamente serão percebidas pelo visitante e apesar da ansiedade e preocupação acredito que exista ordem suficiente para apertar o botão ENTER.
Ao longo dos próximos dias atualizações serão feitas e com o tempo tudo entra no lugar...
O meu blog antigo é refém de um sistema que não permitiu seu resgate...fiquei triste e frustrado por não poder simplesmente começar de onde tinha parado e de ter que abrir mão de registros que para mim eram como páginas de um diário pessoal.
Aceitei a situação e fiz o que restava fazer...não olhar pra trás e começar do zero mais uma vez.
Jun Matsui / São Paulo 22/10/15

JUN MATSUI

DO ARTESANATO E DA ARTE

(TEXTO ESCRITO POR BAIXO RIBEIRO)

 

No Japão, o artesanato faz parte de tradições milenares e é socialmente tratado como algo próximo do sagrado, assim como o Imperador é filho do Sol. A figura do mestre, dentro dessa cultura, é muito admirada, cultuada e, num extremo do tradicionalismo, quase canonizada. Entende-se o mestre-artesão como um ícone da excelência, uma autoridade no seu assunto, alguém capaz de levar uma tradição ao seu estágio mais elevado de desenvolvimento e prestígio. A tradição de se fazer e servir o chá, de criar e vestir o kimono, de fazer o papel, a cerâmica e a construção dos templos em madeiras que não são pregadas, coladas ou parafusadas, mas todas assentadas com encaixes.

Hokusai era artista-artesão, um dos ícones máximos dessa cultura. Autor seminal, foi referência marcante para os artistas europeus que no Século XIX criaram o Modernismo. Hokusai era um mestre-artesão da xilogravura e assim ele se colocava. Na tradição japonesa e no ensinamento Tao, a arte se confunde com o seu fazer e o artesanato é a tecnologia que, dominada com rigor, permite ao mestre chegar ao supremo.

É nesse contexto que a tatuagem de Jun Matsui deve ser compreendida. Um desenvolvimento da técnica com excelência tal, que a autoria, a invenção, a assinatura, se acomodam humildemente atrás do processo artesanal. 
Não se trata apenas de um discurso. Matsui se formou na tatuagem, como todo tatuador ainda se forma até hoje: na vivência com mestres, estagiando em oficinas, exercitando a prática em sintonia com a reflexão, fazendo e fazendo à exaustão, procurando o domínio da técnica, respeitando tradições, chegando ao estágio supremo do conhecimento artesanal para que, só então, surgisse o traço pessoal do artista, humilde e naturalmente.

Vivendo e trabalhando por cerca de dez anos no Japão, Matsui cativou um público fiel ao seu desenho de preto sólido, de abstração gráfica precisa, geométrica e orgânica. Imprimiu forte dinâmica a sua carreira, tornando-se um dos mais respeitados profissionais em todo o mundo, autor original de uma nova estética, nem folk, nem tradicional, nem tribal, nem new tribal. Algo que não tem outra assinatura, senão a sua. 

Se às vezes seu desenho se aproxima do figurativo, como a representação de um animal ou uma adaga, a maior parte das vezes, ele é abstrato e geométrico. Nota-se no conjunto da sua obra um forte rigor formal na exploração do suporte-corpo, nos traçados de linhas precisas e na reconfiguração das formas humanas através das massas de tinta que lhes são distribuídas. Suas tatuagens ocupam o corpo recompondo a figura humana em novas sombras e luzes.

LUZ - Life Under Zen, timbre criado pelo brasileiro Jun Matsui para o seu estúdio e marca em Tóquio, reflete o pensamento por trás da técnica. Com a LUZ, Matsui proclama a independência do seu desenho, como o gerador maior de toda a energia que se consubstancia em design, arte gráfica, fotografia e joalheria, suportes que melhor representam o artista que existe para além do tatuador.

Matsui não se vê como alguém iluminado e carregador de um dom artístico especial. Quando lhe elogiam, dizendo que ele é um dos que ajudaram a elevar a tatuagem ao nível de arte, Matsui não se vangloria. Considera exageradas as teorias criadas em torno de seu nome, como a que diz que por tatuar apenas os seus próprios desenhos, o artista teria criado um novo modelo de relacionamento com os clientes, mais autoral e artístico. Prefere responder que só tatua assim por que não sabe fazer de outro jeito e que, “se soubesse, tatuaria em outros estilos, tatuaria o que lhe pedissem, sem o menor problema”. 

“Não sou um tatuador que vive essa função 24 horas por dia, não tenho isso como estilo de vida, sou um curioso e quero me sentir livre para explorar qualquer outro caminho que me interesse”. Matsui explica que quando foi a Samoa – ilha do arquipélago polinésio – para um período de vivência e intercâmbio com tatuadores locais, percebeu que lá a tatuagem se confunde com a rotina de todos e não é algo dissociável dos costumes e do cotidiano. Não é uma questão artística, é antes de tudo, o comum.

O filme “Jun Matsui”, dirigido por Andre Ferezini, apresenta o lado humano do tatuador, seus pensamentos em voz alta, colhidos em lugares diversos, como no seu estúdio durante uma sessão de tatuagem ou andando a cavalo em sua casa na serra. O imaginário que envolve o tatuador é apresentado por Ferezini em situações que fundem o cotidiano e o momento especial, o trabalho e o ócio, o fazer e o pensar. 

É complexo o processo criativo de Matsui: pesquisa constante associada ao laboratório do dia a dia, formalidade estética temperada pelo conhecimento empírico, técnica lapidada pela prática. O filme captura com precisão o modo como essas relações se dão, através do encadeamento de cenas que nos aproximam da intimidade do artista entremeadas por imagens que contextualizam os inspirados resultados desses processos.

JUN MATSUI

OF CRAFTSMANSHIP AND ART

(text written by Baixo Ribeiro)

In Japan, craftsmanship is part of thousand-year-old traditions and is socially treated as something close to sacred, as the Emperor is the son of the Sun. The master, in this culture, is much admired and worshipped, and in an extreme of traditionalism, practically a canonized figure. The master-craftsman is seen as an icon of excellence and authority in his area, someone capable of taking tradition to its most elevated stage of development and prestige. The tradition of making and serving tea, of creating and wearing a kimono, of making paper, pottery, and the construction of temples with wood and boards that are not nailed, stuck or screwed together, but instead set to fit.

Hokusai was an artist-craftsman, one of the main icons of this culture. A seminal author, he was a marking reference for the European artists who in the 19th century created Modernism. Hokusai was a master woodcut craftsman, and that's how he placed himself. In the Japanese tradition and in the teachings of the Tao, art is one with its making, and handicraft is the technology, which rigorously dominated, allows the master to reach the supreme. 

It is in this context that the tattooing of Jun Matsui must be understood. The development of such excellence in technique, that the authorship, the invention, the signature place themselves humbly behind the craftsmanship process.

This is not just about discourse. Matsui made himself in tattooing as every tattooist still does to this day: by interacting with masters, interning in workshops, exercising the practice in synchronicity with reflection; doing and doing over again to the point of exhaustion, looking for dominion of the technique, respecting traditions, reaching the supreme stage of knowledge in craftsmanship, so that only then, would the personal line of the artist appear humbly and naturally.

Living and working for about 10 years in Japan, Matsui captivated a group of followers who are loyal to his solid, black drawings, his geometric, organic and precise, graphic abstraction. He imparted a strong dynamic on his career, making himself one of the most respected professionals in the world, the original author of a new aesthetic, not folk, not traditional, not tribal, not new tribal. Something that has no other signature besides his own.

If there are times when his drawing seems figurative with the representation of an animal or a dagger, most times it's abstract and geometrical. Strong, formal rigor can be observed in the bulk of his work, in the exploration of the body as support, in the precise lines and in the reconfiguration of human forms through the mass of ink which is distributed upon them. His tattoos take up the body, recomposing the human figure in new shadows and light.

LUZ - Life Under Zen, a hallmark created by the Brazilian Jun Matsui for his studio andbrand in Tokyo reflects the thought behind the technique. With LUZ, Matsui proclaims the independence of his drawing as the main generator of all the energy that is consubstantiated in design, graphic arts, photography and jewelry; supports that better represent the artist that exists beyond the tattooist.

Matsui does not see himself as an enlightened person or as the bearer of a special, artistic gift. When he is complimented, and people say that he is one of those that have elevated tattooing to the level of art, Matsui does not boast. He considers the theories created around his name to be exaggerated, like the one that says that because he only tattooes his own drawings, the artist has created a new form of relationship with his clients that is more authorial and artistic. He prefers to answer that “he only tattooes this way because he doesn't know how to do it any other way, and that if he knew how, he would tattoo other styles, he would tattoo whatever people asked him to, with no problem at all.”

“I'm not a tattooist who lives this life 24 hours a day. I don't see this as a lifestyle. I'm curious and I want to feel free to explore any other path that may interest me.” Matsui explains that when he went to Samoa - the island of the Polynesian archipelago - for a period of interaction and exchange with local tattooists, he noticed that tattooing blends in with the routine of everyone there, and it is not something that is dissociated from the customs and day-to-day life. It is not an artistic issue, it is above all else, the mundane.

The film “Jun Matsui”, directed by Andre Ferezini, presents the human side of the tattooist, his thoughts expressed aloud, collected in several places, such as his studio during a tattooing session or horseback riding on his ranch in the hills. The immaterial which involves the tattooist is presented by Ferezini in situations which blend routine and special moments, work and idle time, doing and thinking.

Matsui's creative process is complex: constant research associated to the day-to-day laboratory, aesthetic formality seasoned with empirical knowledge and technique lapidated by practice. The movie is precise in capturing the way in which all of these relations are tied together, through the connection of scenes which bring us closer to the intimacy of the artist, intertwined by images that contextualize the inspired results of these processes.

 

Entrevista completa para a revista DOC.Arq de Juiz de Fora-MG

 

 

Por Wendell Guiducci

            São quatro e meia da tarde do dia 30 de abril quando, dirigindo para o trabalho, toca o telefone. Do outro lado, uma voz gentil pergunta se é o “Vendell” que está falando, e eu, acostumado às confusões fonéticas que meu nome provoca, digo que sim. Era Jun Matsui, um dos mais prestigiados tatuadores em atividade no mundo. Adepto do silêncio, pouco afeito a entrevistas, ele retornava, por telefone, um e-mail que eu enviara a sua assistente pedindo para conversar. Jun, dono de uma assinatura muito particular, queria saber sobre o que seria a reportagem, e ficamos 20 minutos falando sobre vários assuntos. Por fim, ficou combinado que eu enviaria as perguntas por e-mail e ele me responderia sem demora. E foi o que ocorreu.

Jun Matsui já tatuou Rihanna e desenhou um tênis signature para a Nike. Pintou o corpo de Alinne Moraes para a capa da revista “Rolling Stone” e tatuou o fotógrafo italiano Mario Sorrenti. E um integrante da máfia coreana e outro da Yakuza, a máfia japonesa – esse último, no pênis. E lançou, ainda no Japão, um livro, “Hari”, hoje artigo raro, com uma coleção de fotografias de trabalhos seus. Mas não conversamos sobre nada disso. Como se dividíssemos um bule de chá sob as flores de uma cerejeira, abordamos o tempo, a vida nas metrópoles, a cultura japonesa, o futuro de seu trabalho multidisciplinar e, obviamente, tatuagem.

Um horário para vestir a pele com uma obra de Jun Matsui, pai de um casal de filhos pequenos e radicado em São Paulo desde que retornou do Japão, onde viveu entre 1990 e 2007 e começou a tatuar, tem se tornado cada dia mais difícil. Ele vem se dedicando à arte da confecção de joias, ao design de roupas para sua própria grife, a Life Under Zen, e à loja de mesmo nome que abriu no fim do ano passado na Galeria do Rock, em São Paulo. Em entrevista exclusiva à DOC.Arq, este artesão dekassegui de 43 anos, apaixonado por skate (“Nunca parei de andar... por dentro”, garante), que ainda pretende se dedicar à literatura, fala um pouco mais sobre suas origens, suas artes e seus novos projetos, deixando muito claro que, para ele, “pessoal e profissional são uma coisa só”.

 

Qual a sua primeira lembrança de uma tatuagem?

​Sempre conto a mesma história, dividida em duas partes, apesar de não confiar muito na minha memória. A cena da primeira parte é um grupo de rapazes na rua, talvez no Rio de Janeiro, mas duvido, pois eu tinha que ter menos de 5 anos para que isso tivesse acontecido lá, e, de toda a minha infância, este período no Rio é o mais obscuro, não lembro de nada. Enfim, tenho esta imagem na minha cabeça, de ter visto um desenho no corpo de um destes rapazes. Até hoje presto atenção quando testemunho a maneira como uma criança reage ao seu primeiro contato com uma tatuagem e penso: será que vai acontecer o mesmo que aconteceu comigo? Acredito que, como eu, muitos adultos que decidiram se tatuar ou até mesmo se tornar tatuadores "tomaram" essa decisão na infância... bastou o primeiro encontro com uma pessoa tatuada. A segunda vez que a tatuagem apareceu na minha vida eu já tinha 13 ou 14 anos e vi uma imagem em uma revista de surfe. Imagina a minha felicidade de poder ficar olhando e estudando a imagem... imaginando como aquilo poderia ser feito. Meu primeiro impulso foi me trancar no quarto com uma agulha de costura e um pote da nanquim e "tatuar" o desenho na parte interna do meu antebraço. Era uma pirâmide com um olho no centro e chamas em volta... consegui fazer só o olho. Acabei e pensei: "tô fodido!!". Passei todo o resto da minha adolescência perturbado, tentando esconder a tatuagem dos meus pais e de todo o mundo em casa e na rua, com vergonha do que eles iriam pensar. Hoje ela existe, nunca foi coberta e significa pra mim o começo, a tatuagem no seu estado mais puro.

 

Como teve início sua relação com o desenho​?

​Não sei. Em mais uma dessas lembranças de infância, me recordo de estar sentado na terra, quando nos mudamos para o Mato Grosso do Sul, desenhando a imagem de um sol usando pedras pequenas. Levo essa lembrança a sério e acho ela bonita, talvez por isso acabe escolhendo este momento como o "primeiro" desenho. Talvez essa tenha sido uma das primeiras vezes que senti prazer em ficar só e concentrado, trazendo para fora o que só eu via por dentro. Lembro da minha primeira escola em São Paulo, eu passava a maior parte do tempo desenhando na classe. Qualquer espaço livre em um caderno ou livro era suficiente. Eu estilizava a minha inicial com uma gota colorida por cima, como se o J estivesse no chão e eu deixasse um copo com tinta cair em linha reta bem no centro da letra. Alguém viu, e eu logo estava com cadernos de outros alunos na minha mesa. Eu não era popular, não tinha amigos, e vi o desenho como salvação. Sem ele continuaria invisível. Percebi logo como saber desenhar tinha um significado, que o importante não era saber desenhar, mas saber o que fazer com o desenho pronto. Entendi que era importante desenhar para os outros, isso fazia a minha vida na escola melhor e mais completa. Até hoje não entendo as pessoas que dizem fazer algo para elas e não se importarem com o que os outros pensam. Essa deve ser a diferença entre hobby e trabalho. O trabalho, por mais solitário que seja, sempre termina no coletivo. No final, meu sentimento é simples: isso é a única coisa que sei fazer bem, e ainda bem que as pessoas gostam.

 

Você se mudou para o Japão aos 18 anos, desiludido com a situação do Brasil, e trabalhou lá por 16 anos. Como essa experiência agiu sobre a sua formação?

Me lembro de ter visto um artigo sobre a visita de Hillary Clinton à Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo. Um aluno perguntou sobre as diferenças de oportunidades entre brancos e negros nos Estados Unidos, ela respondeu que "o talento é universal, ou seja, ele brota espontaneamente sobre todo o planeta, todas a gerações produzem talentos naturais independente da geografia e do perfil sócio-econômico-cultural. A oportunidade, não". Algumas sociedades são mais engajadas e cautelosas em não desperdiçar o talento individual que nelas nasce de forma natural. Obviamente que isso resulta em progresso, em inovação, em prosperidade e cultura. Sempre penso nisso quando comparo Brasil e Japão. Uma comparação injusta, verdade, mas a única que tenho. Acredito que o maior impacto vem da experiência de ter passado a parte mais importante da minha formação em uma sociedade na qual o coletivo precede o indivíduo. Não tenho nenhuma expectativa utópica em relação ao Brasil, nem meus sentimentos de revolta mudaram desde que voltei... eles simplesmente são agora menos imaturos. Sinto e vejo as mesmas coisas que me perturbavam e me fizeram ir embora quando tive a chance. No Japão, vi pela primeira vez um mundo diferente, um mundo que eu não acreditava existir. Aprendi que não adianta você gostar do lugar e o lugar não gostar de você... aprendi que, como na sala de aula da minha adolescência, eu tinha que mostrar qual era a minha contribuição para o lugar antes de tirar algo dele. Aprendi ser possível se sentir em casa mesmo estando tão longe da sua. Aprendi que longe da zona de conforto é onde me sinto mais confortável. Aprendi que o pessoal e o profissional são a mesma coisa.

 

E do nordeste, você conserva alguma coisa que transpareça em seu trabalho?

​A capacidade de me emocionar, a música, a literatura e o artesanato. Está tudo presente. Desde a alta cultura até a rua.

 

Você nasceu em Recife, morou no Mato Grosso do Sul, mas viveu muito tempo em São Paulo, depois Tóquio, conheceu Los Angeles, voltou a São Paulo... Qual a sua relação com as grandes metrópoles?

Não acho que eu tenha hoje uma relação direta, contemplativa com a "cidade grande" como tive mais cedo em minha vida. A verdade é que hoje dou mais importância a estar no "tempo" certo do que no "lugar" certo. A primeira e única vez em minha vida que senti isso em uma metrópole foi na Tóquio dos anos 1990, a sensação de estar no lugar certo, na hora certa era verdadeira, e quem estava lá sabe do que estou falando. Hoje em dia, se vou a uma cidade grande não vou em busca de oportunidades, mas sim levado por sentimentos que tenho por pessoas que moram nesse lugar e de quem sinto falta. Isso pode parecer radical, mas não vejo porque uma pessoa morar em uma cidade grande se o propósito principal não for a prosperidade material, principalmente em uma cidade grande na América Latina. A única coisa que justificaria morar em uma cidade disfuncional e inconveniente como São Paulo seria o custo de vida aqui ser muito mais barato que em outras metrópoles do Hemisfério Norte, o que não é o caso. Obviamente digo isso do ponto de vista da classe média. Riqueza e pobreza (sabendo que ninguém "é" rico ou pobre, e sim "está" rico ou pobre) são muito parecidas mundo afora. A diferença de um lugar para outro aparece no estilo de vida e as oportunidades de avanço de quem está no meio. Mas acho que o mais sábio seria escolher o lugar onde se quer morar (quando isso é possível) pela maneira como as pessoas que moram nesse lugar se tratam.

 

Você se tornou conhecido por ter um método de trabalho muito específico como tatuador, um tempo que não condiz com a velocidade da contemporaneidade.

Eu não considero meu método "meu". Sou um artesão e, como qualquer artesão, o impacto que a tecnologia tem em meu trabalho é limitado e até irrelevante do ponto de vista prático. Um mestre sapateiro hoje demora o mesmo tempo para fazer um sapato bem feito que demorava um mestre há 80 anos atrás. E um artesão não compete com o relógio, o espírito da coisa é exatamente o contrário. Quando estou trabalhando, o tempo deixa de existir. Mas tento não ser nem muito rápido nem muito devagar. Esta é a diferença entre pressa e rapidez. Baltasar Gracian disse que a única coisa que todos de fato possuem é o tempo. E a pergunta deve ser sempre essa: o que você vai fazer com o seu? Às vezes imagino que, se fosse possível saber quanto anos teríamos de vida no nosso nascimento e as velas aparecessem nos bolos de forma decrescente, talvez a vida fosse diferente, mais calma, mais natural.

 

Como a moda e a ourivesaria entraram na sua vida?

Sempre gostei da rua e acredito que peguei um pouco da fase quando ainda dava para saber logo de onde vinham as ideias que apareciam nas revistas. Hoje já não se sabe se a revista se alimenta da rua ou a rua da revista. No final dos anos 1980, a gente precisava inventar o que não existia se quisesse se vestir diferente. Hoje tudo está em algum catálogo, inclusive estilos de vida completos com vestúario, gastronomia, arquitetura, literatura e música... um aplicativo te ajuda a ser você. Seu único trabalho é consumir. Eu me lembro de ter começado a fazer camisetas em Tóquio porque sempre tinha alguma ideia que aparecia mais tarde em algum lugar. Pensei: “se eu fizer, as pessoas vão gostar”. Uma conta simples, e mais uma vez meu desenho me leva. A pessoa certa apareceu, e tive minha primeira chance na vida de ter meu próprio negócio fora do universo do artesão tatuador. Foi meu "pai" japonês que acreditou no potencial da ideia como negócio e financiou o projeto. O ouro sempre foi uma paixão, mais ligada a superstição que ao estilo. Acredito que o ouro me traz sorte e é o material que mais combina com os meus desenhos. A modelagem em cera acabou sendo tão importante como trabalho que cheguei a pensar que a tatuagem foi parte do caminho, e a escultura, o ponto final. Finalmente estava só de novo, eu, o bloco de cera e as ferramentas, contente.

 

E agora você está abrindo uma loja. Fale um pouco sobre ela, por favor.

A loja foi mais uma daquelas coisas da vida que não estavam na lista. Tive uma filha no começo de 2013, Hari, e planejei uma viagem com ela e minha esposa para 2014. O plano era passar uma temporada no Japão, seis meses ou mais, ver para onde a vida nos levaria. Acontece que minha esposa engravidou novamente, e isso mudou tudo. Cancelamos as passagens e nos preparamos como foi possível para a chegada do Nui. Na minha visão, o primeiro ano de um bebê requer a família toda no ninho, e é durante este tempo que a "cola" seca. Todos os dias juntos, durante um ano, quietos, sem mexer nas coisas até a cola secar. O Nui chegou em uma casa muito diferente da qual a Hari encontrou quando nasceu, mas apesar da rotina da casa ser mais intensa, eu não quero que com ele seja diferente. A loja sempre existiu na minha cabeça, e durante esses últimos anos tudo indicava que Tóquio me ofereceria uma segunda chance de sair da sala de tatuagem e ir para a rua de novo. Eu precisava iniciar um novo ciclo de trabalho na minha vida, e a chegada do meu segundo filho colaborou para que eu buscasse por isso aqui, apesar de nunca ter tido pretensões de abrir uma loja em São Paulo. Decidi procurar pelo lugar perfeito, por um lugar que só existia aqui, por um lugar que me fizesse feliz, como alguém que abre uma loja numa rua pela qual é apaixonado e não somente pensando no "ponto" do ponto de vista comercial. Queria um lugar que não pudesse ser encontrado em nenhuma outra cidade, senão qual a graça? Frequento a Galeria do Rock desde que tenho 15 anos e levo todos os amigos japoneses que me visitam lá, todos vão embora dizendo que foi o lugar mais genuíno e vibrante que visitaram na cidade. Comecei a executar meu plano de abrir a loja lá sozinho, sem contar nada para ninguém ou pedir conselhos. Fiz exatamente o que e como queria fazer, a minha esposa Júlia sendo minha maior parceira e cúmplice. Minha única regra era que, se as coisas não se mostrassem a favor, eu não iria forçar, erro que cometi muito ao longo da minha vida. Ao longo de três meses vivi uma sequência inacreditável e emocionante de episódios que levaram à abertura da loja no dia 24 de novembro de 2014. Apesar de precisar de meus momentos sozinho de maneira regular, a grande diferença entre a tatuagem e a loja é exatamente essa: a possibilidade de trabalhar em colaboração com outras pessoas, em fazer parte de um time e trabalhar em grupo. Isso também me interessa e faz diferença na minha vida. A tatuagem é um trabalho solitário por natureza, e a loja me permite mostrar meu trabalho para mais pessoas. Durante este processo conheci e trabalhei com pessoas sem as quais nada disso teria sido possível e iniciei um novo ciclo de vida certo de que estou fazendo o que tenho que fazer, me sentindo mais parte da cidade e do país.

 

O corpo é mais criador ou mais espaço de criação?

Depende de quem esse corpo vai encontrar pelo caminho.