Suportar o insuportável
10월 25, 2025

Eu tinha 40 anos quando minha primeira filha nasceu.
A minha vida inteira senti estar sempre muito na frente ou muito atrás das coisas.
Dessa vez eu olhei pra ela e pensei:Você chegou na hora certa meu amor.
Minha imaginação transbordava com imagens do que íamos fazer juntos.
Esperar por ela na saída da escola era algo que eu já havia vivido por antecipação assim como tantas outras situações muitas vezes consideradas banais do cotidiano, eu pensava:Já vivi isso na minha imaginação, eu só não via o seu rosto, não sabia que era com você meu amor.
Uma das coisas que eu mais queria fazer era registrar o crescimento dela numa parede, até ela se tornar uma mulher adulta.
Enquanto esses desejos e imagens viviam na minha cabeça, na vida real as coisas não aconteciam como eu havia imaginado, hoje sei que fui ingênuo, mas quem mantém a guarda fechada dentro da própria casa num momento como esse quando a inocência em pessoa se manifesta na forma de um bebê?
Eu me sentia o pai mais preparado do mundo, se dependesse somente de mim a casa e a família estariam protegidas de qualquer mal.
E o mal sempre entra pelo ponto mais fraco, o mal é acima de tudo covarde.
Eu seguia mesmo assim, atrapalhado e confuso em relação a tudo menos a minha filha.
Uma das visões que me guiaram neste momento me disse o seguinte:
-Se você conseguir estar no mesmo lugar, no mesmo dia durante 7 anos para medir e marcar a altura da sua filha talvez você salve a família.
Eu e o meu complexo de salvador.
Eu interpretava isso como uma mensagem de ordem, ritmo e amor.
Consegui fazer isso durante 4 anos no mesmo dia, as marcas e datas estão lá.
E foi até este ponto que seguimos juntos como família.
Neste momento o impensável aconteceu e o insuportável teve de ser suportado.
No sétimo ano de vida da minha filha tomei a decisão mais irracional que um pai pode tomar e me afastei da minha filha e meu filho que nessa altura já havia nascido.
Eu também tenho a minha parede invisível.
E só assim eu também pude continuar a crescer.