Estamos numa curva fechada subindo a serra, eu rezo pro carro chegar até o próximo acostamento.
O motor morre no meio da curva.Atravesso a pista carregando meus filhotes no colo.Estamos no meio da serra, carro sem gasolina, telefone sem bateria.
As crianças somem no meio do mato e eu fico no asfalto acenando para caminhões, carros e motos diminuírem a velocidade.Grito pras crianças ficarem no meu campo de visão.
Por duas vezes quase batem no carro, eu não posso sair de onde estou.Céu fechado e vento frio, estamos ali já faz 1hr quando a primeira pessoa para , uma motoqueira, vestindo um escudo do qual não me recordo diz que vai buscar ajuda.
Pouco depois vejo um carro parar longe, um homem caminha até nós, é o Fábio, caboclo de tudo.
Diz que vai atrás de uma corda e volta com seu carro e a corda, enquanto tento amarrar a corda ele tenta parar o tráfego, muito arriscado, desistimos.
Nessa hora aparece a polícia, bloqueam a pista para mudarmos o carro de posição. A solução é o Fábio buscar a gasolina.
Só nessa hora vejo que no banco de trás ele leva a mulher com um filho de colo e mais dois pequenos, o nome dela é Bianca.
Ela diz que vai ficar com a gente esperando, eu insisto para ela não sair do carro.
-Eu sei o que é ficar na estrada com as crianças, ninguém nunca parou para nos ajudar, eu fico aqui com vocês.
Respondo com os olhos.
Vejo ela sentada no chão aquecendo o filho, as 4 crianças brincando, estou presente e percebo que o que acontece é muito mais que um contratempo banal, me sinto vivo.
Agradeço a família e a força maior, Seguimos viagem.
Mais 2 km e o motor para, dessa vez é final.
Saímos andando e na primeira porta somos recebidos pelo Sr.Silvio que nos leva até um mecânico, o Alemão, que antes de nos levar de volta até o carro serve café com leite e bolo pras crianças.
Já é noite, ele fica até o guincho chegar.
100km na cabine do caminhão do Donizete.
10pm em casa, vamos até a praça.
Me sinto estranhamente feliz e sereno.
Hoje meus filhos viram um mundo bom.